Negócios em Números: a força dos mercados de bairro no Brasil

Mais de 160 mercadinhos abrem por dia no Brasil. Conheça os números, a força e os desafios dos mercados de bairro no varejo alimentar.

Equipe PDVFlash 9 min de leitura

Mais de 160 novos mercadinhos foram abertos por dia no Brasil durante o primeiro semestre de 2025.

Enquanto o crescimento dos grandes atacados levanta dúvidas sobre o futuro do pequeno comércio, milhares de empreendedores continuam apostando nos minimercados, mercearias e mercados de bairro.

Esses estabelecimentos podem ser pequenos individualmente, mas, juntos, fazem parte de uma das atividades comerciais mais presentes na rotina dos brasileiros.

Os números mostram um setor forte, espalhado pelo país e capaz de conviver com diferentes formatos de venda. Ao mesmo tempo, revelam que faturamento maior nem sempre significa aumento no número de clientes, nas mercadorias vendidas ou no lucro da operação.

Mais de 29 mil novos mercadinhos em seis meses

Somente no primeiro semestre de 2025, foram abertos mais de 29 mil minimercados, mercearias e estabelecimentos semelhantes no país.

Isso representa uma média de 162 novos CNPJs por dia, ou quase sete novas lojas a cada hora.

O resultado foi 8,5% superior ao registrado no mesmo período de 2024, quando aproximadamente 27,1 mil negócios desse tipo foram abertos. O levantamento foi realizado pelo Sebrae com base nos registros do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica da Receita Federal.

O número não significa que todos esses estabelecimentos alcançarão bons resultados. Abrir uma empresa é diferente de construir uma operação sustentável.

Ainda assim, tantas novas aberturas mostram que o mercado de bairro permanece sendo visto como uma oportunidade em diferentes regiões do Brasil.

Um setor presente em praticamente todas as cidades

O mercadinho assume nomes diferentes conforme a região. Pode ser chamado de minimercado, mercearia, armazém, bodega ou simplesmente mercado do bairro.

Independentemente do nome, sua função costuma ser semelhante: atender as necessidades mais próximas e frequentes da população.

É o local onde o consumidor encontra o produto que acabou, o ingrediente que faltou, a bebida gelada, o pão para o café ou os poucos itens que não justificariam um deslocamento maior.

Essa presença espalhada pelos bairros ajuda a explicar por que o pequeno comércio continua relevante mesmo diante de redes nacionais, supermercados e atacados.

Uma grande loja pode atender milhares de consumidores em um único endereço. Os mercados de bairro fazem o contrário: distribuem milhares de endereços próximos aos consumidores.

O varejo alimentar movimenta mais de R$ 1 trilhão

Os pequenos mercados fazem parte de um setor de enorme importância econômica.

Segundo o Ranking ABRAS, o varejo alimentar brasileiro movimentou mais de R$ 1 trilhão em 2024 e reunia mais de 424 mil lojas de diferentes formatos.

Esses estabelecimentos incluem supermercados, atacados, minimercados, lojas de conveniência, hortifrutis, mercearias e outras operações ligadas à venda de alimentos e produtos de consumo cotidiano.

Em conjunto, atendem aproximadamente 30 milhões de consumidores por dia.

Esses números não se referem apenas aos mercados de bairro, mas ajudam a demonstrar o tamanho do ambiente econômico do qual eles fazem parte.

O varejo alimentar não está concentrado somente em grandes redes. Ele é formado também por milhares de empresas independentes, familiares e regionais espalhadas por todo o país.

O consumidor não compra tudo no mesmo lugar

O crescimento dos grandes atacados não significa que o consumidor tenha escolhido fazer todas as compras em um único estabelecimento.

Uma pesquisa da Kantar mostrou que os brasileiros voltaram a frequentar e combinar mais canais para abastecer suas casas.

Na comparação apresentada pelo estudo, a presença nos lares cresceu 9,6% nos atacados, 7,7% nos supermercados convencionais e 3,9% no comércio eletrônico.

Outro levantamento da empresa mostrou que, enquanto os atacados conquistaram três milhões de novos lares, os supermercados independentes também ganharam 1,8 milhão.

Isso significa que os formatos não são necessariamente excludentes.

Uma mesma família pode:

- fazer a compra maior no atacado;

- procurar produtos frescos em um supermercado;

- comprar itens emergenciais no mercado do bairro;

- aproveitar uma promoção em outra loja;

- pedir determinados produtos pela internet.

O consumidor distribui suas compras conforme preço, distância, disponibilidade, urgência e conveniência.

Para o mercado de bairro, isso representa uma oportunidade importante. Ele não precisa conquistar toda a compra mensal para permanecer relevante. Pode se tornar a principal escolha para determinados momentos da rotina.

As lojas de vizinhança faturaram mais

As lojas de vizinhança, classificadas em levantamentos do setor como estabelecimentos com até nove caixas, encerraram 2025 com crescimento nominal no faturamento.

Esse resultado demonstra que o formato continua movimentando valores expressivos e mantendo presença no cotidiano do consumidor.

Entretanto, observar apenas o crescimento do faturamento pode levar a uma conclusão incompleta.

Faturar mais não significa necessariamente vender mais produtos, receber mais clientes ou obter mais lucro.

Quando os preços sobem, uma loja pode registrar aumento no valor das vendas mesmo que o consumidor esteja levando menos unidades para casa.

Por isso, o comerciante precisa acompanhar não apenas quanto entrou no caixa, mas também:

- quantos clientes foram atendidos;

- quantos produtos foram vendidos;

- qual foi o valor médio de cada compra;

- quanto os custos aumentaram;

- quais categorias cresceram;

- qual margem permaneceu depois das despesas.

O faturamento é um número importante, mas não explica sozinho a saúde do negócio.

Redes locais mostram a força do pequeno varejo

Ao viajar pelo Brasil, é comum encontrar uma rede de mercados diferente em cada cidade ou região.

Algumas possuem poucas unidades. Outras se espalham por vários bairros e se tornam marcas reconhecidas localmente.

Essa presença mostra que um mercado não precisa se transformar em uma rede nacional para construir uma operação forte.

As redes regionais podem reunir vantagens importantes:

- conhecimento dos hábitos locais;

- presença em diferentes bairros;

- relacionamento com fornecedores da região;

- marca conhecida pelos moradores;

- compras em maior volume;

- campanhas promocionais compartilhadas;

- padronização do atendimento;

- maior capacidade de negociação.

Também existem mercados independentes que participam de associações, centrais de compra ou redes de negócios. Cada loja pode manter seu proprietário, mas os participantes se unem para negociar, comprar e divulgar melhor.

Esse modelo permite que empresas menores preservem a proximidade com o consumidor enquanto conquistam parte das vantagens operacionais das organizações maiores.

O mercado pode ser pequeno sem permanecer sozinho

A imagem tradicional do mercadinho é a de uma única loja administrada por uma família.

Esse modelo continua existindo, mas já não representa todas as possibilidades do setor.

Um pequeno mercado pode crescer de diversas formas:

- abrindo uma segunda unidade;

- expandindo para outros bairros;

- entrando em uma rede associativa;

- participando de uma central de compras;

- criando uma marca regional;

- ampliando serviços;

- oferecendo entregas próximas;

- recebendo pedidos por canais digitais.

O crescimento não precisa significar abandonar a característica local.

Na verdade, muitas redes regionais ganham força justamente porque conseguem combinar escala com conhecimento da comunidade.

Elas podem negociar como organizações maiores sem perder completamente a capacidade de adaptar produtos, preços e serviços aos hábitos da região.

A proximidade continua sendo uma vantagem

Os grandes atacados normalmente são instalados em pontos capazes de receber operações maiores, grandes estacionamentos e fluxo intenso de veículos.

Por isso, muitas vezes exigem mais deslocamento e planejamento por parte do consumidor.

Os mercados de bairro ocupam outro espaço.

Eles podem estar próximos das casas, no trajeto de volta do trabalho, ao lado de condomínios ou em regiões onde a população realiza parte das compras a pé.

Essa localização facilita compras pequenas e frequentes.

Entretanto, estar próximo não garante que o cliente continuará comprando.

A proximidade precisa ser acompanhada por:

- produtos disponíveis;

- preços coerentes;

- atendimento rápido;

- organização;

- horários adequados;

- qualidade;

- facilidade de pagamento.

O consumidor pode escolher o estabelecimento mais próximo em uma situação de urgência, mas dificilmente se tornará fiel a uma loja que deixa faltar produtos ou cobra diferenças consideradas excessivas.

Crescimento também exige eficiência

A expansão do setor não elimina seus desafios.

Os mercados de bairro trabalham com grande variedade de mercadorias, diferentes prazos de validade e necessidade constante de reposição.

Erros pequenos, quando repetidos diariamente, podem consumir parte significativa do resultado.

Entre os principais riscos estão:

- produtos vencidos;

- mercadorias avariadas;

- diferenças entre estoque físico e sistema;

- compras acima da demanda;

- falta dos itens mais vendidos;

- erros no recebimento;

- furtos;

- preços cadastrados incorretamente;

- perdas durante o armazenamento.

A loja pode vender todos os dias e ainda enfrentar dificuldades se não souber quanto está perdendo.

Por isso, o fortalecimento do pequeno varejo está ligado também à sua profissionalização.

Conhecer o cliente continua importante. Mas conhecer os números da própria operação tornou-se igualmente necessário.

Faturar mais não é o único objetivo

Os números nacionais ajudam a enxergar o tamanho do segmento, mas cada mercado possui uma realidade diferente.

Duas lojas podem apresentar o mesmo faturamento e resultados completamente distintos.

Uma pode operar com estoque bem planejado, poucas perdas e margens saudáveis. A outra pode ter dinheiro preso em mercadorias paradas, despesas elevadas e dificuldade para repor os produtos.

Por isso, os indicadores mais importantes não são apenas externos.

Dentro da loja, o comerciante precisa saber:

- quais produtos mais vendem;

- quais mercadorias estão paradas;

- quanto cada categoria deixa de margem;

- quanto se perde por validade ou avaria;

- quais dias e horários concentram as vendas;

- quando é necessário repor;

- qual é o tíquete médio;

- quanto realmente sobra depois dos custos.

Os números do setor mostram que existe demanda. Os números da operação mostram se a loja está aproveitando essa demanda.

Pequenos no tamanho, grandes quando observados em conjunto

Mais de 29 mil novos negócios abertos em apenas seis meses não representam um segmento em desaparecimento.

Centenas de milhares de lojas ligadas ao varejo alimentar mostram uma estrutura comercial presente em praticamente todo o território nacional.

O crescimento simultâneo de atacados, supermercados convencionais e estabelecimentos independentes também revela que o consumidor não escolhe apenas um formato.

Ele combina canais e distribui suas compras de acordo com a necessidade.

Os mercados de bairro continuam tendo espaço porque oferecem algo difícil de reproduzir apenas com tamanho: presença dentro da comunidade.

Entretanto, a força do setor não significa que qualquer operação dará certo.

O mercado de bairro que deseja crescer precisa unir proximidade, preço coerente, produtos adequados, controle de estoque e conhecimento sobre o comportamento dos clientes.

Os números mostram um segmento forte, amplo e cheio de oportunidades.

Mas mostram também que o futuro pertencerá cada vez mais às lojas que conseguem transformar movimento em informação, faturamento em resultado e proximidade em uma vantagem real.

Individualmente, cada estabelecimento pode ocupar apenas uma pequena esquina.

Juntos, os mercados de bairro formam uma das maiores e mais presentes redes comerciais do Brasil.